César Gioda Bochi
Diretor Presidente do Banco Cooperativo Sicredi e Confederação Sicredi
Ter um ideal é saudável, mesmo que ele nunca seja plenamente alcançado. É ele que indica o caminho, a razão para existir.
Essa ideia aparece logo no início de um livro que, curiosamente, não me lembro como chegou até mim: O Naufrágio das Civilizações, de Amin Maalouf.
O autor observa que, há alguns anos, desviamos perigosamente de rotas civilizatórias que pareciam sólidas. Ele fala do paradoxo de um mundo que avança velozmente nas ciências, na tecnologia e no desenvolvimento econômico, mas que, em tudo que diz respeito às relaçõeshumanas, parece empacado — ou até regredindo.
Maalouf menciona que a soma de todos os egoísmos atuando em seus próprios interesses, caracteriza a humanidade de nossos dias. Uma era marcada pela propensão à fragmentação, à divisão. Nesse contexto, ele lança a pergunta forte que eu trouxe no começo deste texto: o que é que ancora a vida em sociedade? O que faz com que grupos tão diversos queiram pertencer a uma mesma coletividade, a uma mesma nação?
O livro pode ser incômodo, até levar ao desânimo. Mas sublinha que é o dever de cada um, em circunstâncias tão graves como as que atravessamos neste século, permanecer lúcidos e atuar. Sem preguiça, complacência ou abatimento – e sem ódio, sobretudo. É preciso agir.
Eu acredito que o cooperativismo oferece uma resposta concreta e viável.
Não apenas como modelo econômico alternativo, mas como espírito do nosso tempo.
O cooperativismo nasce da vulnerabilidade e do senso de interdependência nas pequenas comunidades, mas, pela sua lógica, pode — e deve — ser ampliado. Pode ser princípio estruturante de uma sociedade que valoriza pertencimento, solidariedade, empreendedorismo e prosperidade compartilhada.
É preciso agir com urgência para harmonizar interesses individuais com interesses coletivos — sem exigir uniformidade de pensamento, religião, raça ou origem. Basta que cada pessoa se sinta parte real de um sistema social que a reconheça e acolha.
Nunca a liderança empresarial e comunitária foi tão necessária.
Líderes que saibam unir visão e pragmatismo, que saibam pairar acima de ressentimentos e mostrar que as prioridades mudaram. Que entendam que o futuro de todos depende de como tratamos o agora.
Claro, não é simples. Mas quando se toma consciência de que o que está em jogo é o futuro dos nossos filhos e as próximas gerações, precisamos encontrar os meios — custe o que custar. As diferenças irredutíveis devem ser reconsideradas, conscientemente ou não.

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